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Não existe o bem e o mal na política


Não existe o bem e o mal na política. Existem apenas grupos em busca dos seus próprios interesses, que muitas vezes são antagônicos. Com o maior acesso à informação, pela consolidação da TV e depois pelo crescimento da internet e redes sociais, algumas pessoas que antes não cogitavam incluir política em suas rodas de conversa passaram a debater o tema. Se isso é bom por um lado, por outro gerou uma “politização” embasada em conhecimento nenhum de história e política e facilmente suscetível às “fake news” e manipulação. Cumpre destacar que boa parte dos meios de comunicação em massa do Brasil pertence a grandes grupos econômicos de "dinastias políticas".

Há, portanto, uma nova geração de “politizados” que ainda não sabe a diferença entre eleição majoritária e proporcional e que acredita que todas as mazelas do país começaram nos governos do PT (pois foi quando começaram a acompanhar os noticiários de fato e estes passaram a falar em corrupção de maneira exaustiva). Pessoas que estavam muito felizes em meados dos anos 2000, com aumentos salariais e facilidade para compra de carros e eletros (quando muitos, como eu, já criticavam o aparelhamento estatal, conchavos e outros indícios de corrupção do governo e já defendiam a alternância de poder), que não sabem o papel de partidos como o PTB no mensalão (que partido é esse?) e que só entenderam o tamanho do problema da corrupção quando a GLOBO, sim, a GLOBO, em defesa do PSDB, popularizou o mensalão e depois a lava-jato.

Essas pessoas saíram de verde e amarelo e exigiram o impeachment de Dilma. Mesmo muitos tendo votado nela para a reeleição, inclusive. Agora revoltados contra a corrupção, o maior mal da nação. Inflados pelos bonecos da FIESP, não foram capazes de perceber que não havia nada de novo no front.

Vamos entender a história da nossa república. Ao longo de quase 130 anos, foram 38 presidentes. O primeiro deles, Marechal Deodoro da Fonseca, deu um golpe militar no Imperador Dom Pedro II, depois, tentou dar um golpe dentro do golpe e foi forçado a renunciar. De lá para cá, de 38, apenas 18 presidentes foram eleitos pelo voto “direto”, contando aí os presidentes da República Velha, eleitos pelo “voto de cabresto”. Destes, só dez completaram todos os seus mandatos de 4 ou 5 anos, dependendo da legislação da época.

Foram eles: Prudente de Morais (1894-1898), Campos Sales (1898-1902), Rodrigues Alves (1902-1906), Hermes da Fonseca (1910-1914), Venceslau Brás (1914-1918), Artur Bernardes (1922-1926), Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), JK (1956-1961), FHC (1995-2003) e Lula (2003-2011). Os outros 8 presidentes “democraticamente” ou “coronelisticamente” eleitos foram:
Afonso Pena (1906-1909) – morreu antes do final do mandato.
Epitácio Pessoa (1919-1922) – embora tenha cumprido seu mandato, foi mais curto, já que se elegeu em segunda eleição, após a morte de Rodrigues Alves antes de tomar posse.
Washington Luís – deposto pela Revolução de 1930, quando Vargas toma o poder.
Getúlio Vargas (1951-1954) – cometeu suicídio em seu mandato democrático, para não renunciar após grave crise política e denúncias de seu governo.
Jânio Quadros (1961) – renunciou durante crise política.
Collor (1990-1992) – renunciou durante processo de impeachment.
Dilma (2011 – 2016) – cumpriu um mandato, mas sofreu impeachment no segundo.
Bolsonaro (2019-) não sabemos de que lado da história estará.

Ou seja, se analisarmos a história, vemos que a regra é a instabilidade política e econômica. Quase todos os governos sofreram crises graves, tentativas de golpes e revoluções, inflação galopante. A exceção na história são dois presidentes democraticamente eleitos cumprirem dois mandatos. Mas para quem começou a acompanhar política na era pós-lava-jato, a impressão pode ser diferente. Há quem acredite que voltar ao Brasil de 40 ou 50 anos atrás é uma maravilha e há grupos para os quais voltar a esse Brasil é bem interessante.

Outras questões relevantes: na República Velha a “estabilidade” estava amparada em um sistema político que assegurava o poder oligárquico. Os donos do poder econômico estavam representados pelos políticos que defendiam os interesses dos grandes grupos econômicos: produtores rurais (café e leite) de São Paulo e Minas Gerais.

Nada mudou nos anos seguintes. No Brasil nenhum presidente caiu por conta de corrupção (está aí o Temer para provar). Presidentes caem por razões políticas e econômicas. Collor não apenas se indispôs com o Congresso, mas também com empresários, além de não reduzir a inflação esperada e fazer bananadas econômicas. Dilma da mesma forma. Corrupção e improbidade são termos usados somente quando é conveniente.

Na política, quem tem condições de defender seus interesses é quem possui dinheiro para financiar campanhas políticas e assegurar seu lobby nas decisões dos Três Poderes. Seja via Caixa 2 oculto ou escancarado (como em 2018). Acredite, não foi você e sua camisa amarela que tiraram Dilma. Afinal, você queria que o Temer saísse também e ele continuou lá. Mesmo contra sua vontade, não foi instaurada investigação contra ele pela Câmara. Por isso, acredite, hoje não é você e sua camisa amarela que estão defendendo o “capitão”.

Grupos econômicos estão em busca da defesa dos seus interesses e para isso patrocinam as redes sociais na defesa dos políticos que acreditam que têm as melhores condições de defender esses interesses. Isso é ruim? Empresários são fundamentais para o crescimento da nação. São eles quem geram emprego e renda, sem dúvidas. O problema surge quando essa concorrência passa a ser desleal. Quando certos grupos usam o dinheiro para ter cada vez mais poder, criar oligarquias e assim conseguir mais dinheiro.  O cenário político torna-se um balcão de negócios. Assim tem sido no Brasil desde sempre. Algumas famílias permanecem no cenário político há décadas. São os grandes grupos econômicos que dizem quem fica ou não no poder. Ou você segue a cartilha, ou está fora do baralho.

Ao invés de atacar os problemas da nação como deveriam, fazem a população acreditar que uma reforma trabalhista que suprime inúmeros direitos é essencial e que sem ela, não haverá empregos (e bom, onde estão todos os empregos que a reforma geraria depois de um ano e meio?). Fazem a população crer que o mundo acabará, o comunismo triunfará e o Brasil virará a Venezuela se tal candidato vencer (Gente, nós ouvimos esse mesmo tipo de discurso desde 1989 até 2002... e bom, não foi o que aconteceu, né?). Fazem a população acreditar que uma reforma da previdência cruel e baseada no modelo fracassado do Chile é fundamental, ou o país vai quebrar (mas qual a vantagem de depois aposentar recebendo metade de um salário mínimo?). Que a economia é mais importante que o meio-ambiente (sendo que a economia é quem mais depende do meio-ambiente) e que você precisa colocar sua camisa amarela para defender bandeiras que não te pertencem.

As reformas são necessárias? Muito, apesar dos exageros, muito do que se diz que acontecerá sem elas é fato. Precisávamos de reforma trabalhista, precisamos de reforma previdenciária, tributária e, principalmente, política. A questão é se os fins justificam os meios. Se essas reformas são as que deveriam ser feitas. Pois, quem olhar atentamente, verá que os privilégios estão sendo mantidos e que graves problemas continuam sem ser atacados. O PT precisava sair? Em 2006, gente! No máximo em 2010! Alternância no poder é fundamental. Foram anos de atraso! E feito do jeito errado, usando a Constituição de maneira totalmente deturpada, porque sim, eu queria que a Dilma saísse, mas da forma como foi, foi golpe (mas isso fica pra outro texto).

Alguns grupos de direita já sacaram que a forma atrapalhada e populista do atual governo gerir também não atende aos interesses econômicos. Os mais liberais estão insatisfeitos (só olhar na cara de tristeza do Paulo Guedes para ver o sacrifício que ele está fazendo pelos interesses que o movem, que não são os nossos). Outros grupos ainda apostam na necessidade de que ESSE governo dê certo, pois mais instabilidade política prejudicará mais ainda a economia, e por isso patrocinam as bandeiras de hoje.

Então, amigos, não quero acabar com as ilusões das crianças, mas Papai Noel não existe. Mesmo quando o gigante acha que acordou, ele segue no seu mundo de sonhos. O tabuleiro só vira de lado, sempre. Mas os peões continuam sendo os primeiros a morrer. Polarização só serve para quem se beneficia dela e não somos você e eu. Nós estamos do mesmo lado, o lado que perde sempre, entende? Não importa se é esquerda ou direita que está no poder, só muda a forma como eles nos iludem enquanto nos dilapidam.

Existem alguns políticos, coitados, perdidos lá no meio, que entraram sim pelo nosso voto consciente e que precisam do nosso apoio nessa luta. Eles são a esperança verdadeira. Mas suas vozes quase não são ouvidas. Estejamos atentos, pois hoje, não importa o lado, quem está nos holofotes não nos representa. Simples assim. Nós, povo, perdemos a eleição de 2018 no primeiro turno.

Enquanto não abrirmos os olhos para a divisão que querem criar entre nós para nos distrair do que é importante, não seremos capazes de resistir e mudar. Meu apelo é que você leia o que está nas entrelinhas, que se informe de verdade. Eu falo sobre coisas da reforma da previdência e a maior parte das pessoas nem sabe o que está escrito, nem se deu ao trabalho de ler o projeto. Mas mesmo assim, algumas delas colocaram sua camisa amarela e foram com seus cartazes defender a reforma! Conseguem entender o meu desespero? Se você faz parte do grupo que abate o gado ou que o come, tudo bem, faz sentido você defender o churrasco no final de semana. Mas se você é o gado... por que faria isso?

O segredo não é a polarização nem o radicalismo. Somente o equilíbrio pode trazer os resultados que esperamos, ou seja, crescimento econômico e social juntos. Sem crescimento econômico, todos ficamos pobres juntos. Sem crescimento social, a maioria fica pobre enquanto meia dúzia enriquece. Observe que para alguns, a segunda opção é muito vantajosa, exatamente por isso eles a defendem com unhas e dentes. Nossa melhor opção é o meio do caminho entre essas duas coisas. Precisamos enxugar o Estado, precisamos atacar privilégios, precisamos de reformas. Mas precisamos que elas sejam debatidas e construídas de forma que tragam o benefício econômico sem sacrificar uma parcela imensa da população. Se é fácil, claro que não, mas é o único caminho.

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